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sábado, 3 de julho de 2010

quinta-feira, 1 de julho de 2010



Movido pelo ódio, embora ainda não totalmente dominado por ele, o imperador Conrado III, entrando na cidade de Baviera, consentiu em deixar fugir as mulheres. Apenas.
Que elas saíssem a pé, foi a sua imposição; e que levassem só o que pudessem carregar com os braços. Tudo o que ficasse para trás seria arrasado pelo fogo. (...)
A parte que conta Montaigne comove: as mulheres, com a força que só o coração e o desespero conseguem, pegaram em filhos e maridos e carregaram-nos às costas, livrando-os da morte.

texto [excerto]: Gonçalo M. Tavares
fotografia: Mariana Sabido

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O Príncipe Feliz [Oscar Wilde]




Na mais central praça da cidade erguia-se a estátua do Príncipe Feliz. Era uma autêntica jóia.

Um dia pousou aos pés da estátua uma formosa andorinha, que estava de passagem para o Egipto. Era a sua última oportunidade, pois havia-se atrasado ao querer convencer um junco a acompanhá-la na viagem. Mas o junco não pode separar-se da terra que lhe dá a vida, apesar do amor que o liga à andorinha...!
Olhando com mais atenção para a estátua, a andorinha notou que duas gotas lhe molhavam a cara... Eram duas grossas lágrimas!

-Porque choras, Príncipe?
-Pelos pobres da cidade, amiguinha. Há tantos! Quando reinava, ninguém me contava nada do que sucedia, e os altos muros do Palácio não me deixavam ver. Mas desde que me colocaram aqui posso ver a pobreza e a miséria de tanta gente, e sinto-me angustiado. Queres ajudar-me?
-Estou de passagem para o Egipto... -respondeu-lhe a andorinha.
Mas o Príncipe pediu-lhe tanto, que acabou por dizer que sim.
-Arranca o rubi da minha espada. Leva-o ali àquele casebre em frente. Lá vivem uns meninos pobres que não podem pagar o aluguer. Querem pô-los na rua... Impede-lo!
A andorinha arrancou o rubi da espada e levou-o ao casebre.
-Olhem, deixou-nos uma coisa.
-É uma jóia. Podemos vendê-la e com o dinheiro pagar o aluguer da nossa casa. - disse a mais velha.
Voltando para junto da estátua, a andorinha disse ao Príncipe:
-Terminei, Príncipe. Agora vou partir para o Egipto.
-Espera um pouco, amiguinha. Há mais pobres na cidade. Leva uma safira a um escritor doente, que é tão pobre que nem pode pagar os remédios.
-Mas a safira é um dos teus olhos. Vais ficar vesgo se t'o arrancar.
-Não faz mal! Anda, vai ajudá-lo.
A andorinha voou até à arruinada cabana que o Príncipe lhe tinha indicado. E a safira serviu para salvar o velho escritor.
Havia mais pobres na cidade. A andorinha tinha que voar para o Egipto, onde passaria o Inverno junto com as irmãs... mas o Príncipe pediu-lhe que tirasse a outra safira do olho.
-Se o fizeres FICARÁS CEGO!
-Não faz mal, andorinha.
Estava muito frio. O Inverno já se instalava. E a andorinha foi socorrer outros pobres. Arrancou uma a uma as lâminas de ouro da estátua. E quando acabou e dela já nada de valor restava, deitou-se aos pés do amigo. Não o abandonaria assim cego...! E numa noite ainda mais fria a andorinha morreu, o que feriu profundamente o coração de chumbo do Príncipe Feliz.
Como a estátua sem os enfeites ficara muito feia, um dia baixaram-na do pedestal e levaram-na para uma fundição. Mas ao fundi-la verificaram que o coração de chumbo resistia ao calor mais elevado. Deram-no então a outro ferreiro, que também não conseguiu fundi-lo.
-Tragam ao Céu o coração de chumbo do Príncipe Feliz e o corpo da Andorinha -ordenou Deus, sorrindo.
-Nunca na Terra ninguém demonstrou tanto amor pelos pobres -acrescentou. -Por isso vão ficar eternamente a meu lado.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Flor



Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!


texto [excerto]: José de Almada Negreiros

fotografia: Mariana Sabido

Valor das Palavras



Há palavras que fazem bater mais depressa o coração - todas as palavras - umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lado donde se ouvem - do lado do Sol ou do lado onde não dá o Sol.

Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo.


texto [excerto]: José de Almada Negreiros

fotografia: Al Magnus

segunda-feira, 26 de abril de 2010



Distrair a morte é uma ciência que se aprende quando corajosos vasculhamos o seu mais íntimo existir. Foram diversas as ocasiões em que, na constante metamorfose, na vertigem que invade o sangue quando deus olha, o anjo agrilhoado me pediu para lhe abrir a porta
- Por favor?
- Suturei a morte com os teus lábios

texto [excerto]: Nuno Viana
fotografia: Daniel Camacho

As palavras



O preço de uma pessoa vê-se na maneira como gosta de usar palavras. Lê-se nos olhos das pessoas. As palavras dançam nos olhos das pessoas conforme o palco dos olhos de cada um.

texto [excerto]: José de Almada Negreiros
fotografia: Omar Cleunam

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Aventuras de João Sem Medo



Era uma vez um rapaz chamado João que vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, exígua aldeia aninhada perto do Muro construído em redor da Floresta Branca, onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam estalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos.
Apesar de ficar a pouca distância da povoação, ninguém se atrevia a devassar a floresta. Não só por se encontrar protegida pela altura do Muro, mas principalmente porque os choraquelogobebenses – infelizes chorincas que se lastimavam de manhã até à noite – mal tinham força para arrastar o bolor negro das sombras, quanto mais para se aventurarem a combater bichas de sete bocas, gigantes de cinco braços ou dragões de duas goelas. Preferiam choramingar, os maricas! (...)
O único que, talvez por capricho de contradizer o ambiente e instinto de refilar, resistia a esta choradeira pegada, era o nosso João que, em virtude duma contínua ostentação de bravata alegre e teimosia na luta, todos conheciam por João Sem Medo. (...)
- Mãe: não aturo mais isto. Vou saltar o Muro. (...)
Mas as implorações da mãe não impediram que, na manhã seguinte, João Sem Medo se esgueirasse de Chora-Que-Logo-Bebes e se dirigisse à socapa para o tal Muro que cercava a floresta e onde alguém escrevera este aviso:

É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR.

texto [excerto]: José Gomes Ferreira
fotografia: Al Magnus

segunda-feira, 19 de abril de 2010



- Sabias que há palavras que se apaixonam, que têm amor dentro delas?
- Não.
- Palavras que te molduram o olhar, construindo o chão do teu amor por alguém, por onde depois caminharás vendado

texto [excerto]: Nuno Viana
fotografia: ellen kooi

terça-feira, 16 de março de 2010

Álbum de Família



Voam as andorinhas, é Verão. Voam libélulas, tão transparentes como a palavra libélula, voam rente ao ribeiro sem se molharem, são férias. Voa o vento, voa a a música, voa o anjo, voa o grito desde o alto da montanha até à outra montanha e constrói uma ponte por cima do vale, voa a luz de Agosto através das folhas das árvores (e faz manchas claras no chão), e eu...
E eu, que não conheces pelo nome, eu também voo em sonhos. Descolo da terra na vertical, como um helicóptero, depois continuo um pouco inclinado e no alto, à esquerda, aparece o dia a madrugar e à direita, em baixo, está a noite noitíssima, e eu sempre a subir, tal qual uma nave espacial, para o azul do meio, entre o sol e a lua, enquanto a terra se afasta, diminui, fica pequena, uma ervilha. Quem não sonha e não voa não é teu amigo.

Queres voar comigo?

texto: Jorge Listopad

terça-feira, 9 de março de 2010

As nossas mãos



O teu corpo entre a luz do azeite, ou as velas em castiçais, como o teu rosto aceso nos jantares. Nem um dia sem uma luz do sol. Nem uma noite sem uma luz das estrelas.
O teu corpo num altar. O teu corpo junto a um altar. O teu corpo, um altar onde beijo a cor do coração e me ajoelho, fixando os nossos olhares que olham na mesma direcção. Estão lá os nossos santos, a nossa fé, os nossos gestos encostados à berma do nosso leito, que é o leito e altar, antes de nos descansarmos.
As noites têm uma mão acesa, junto à lamparina azeite que é costume deixares a arder pela madrugada fora. Toco a tua mão acesa e dou-lhe a minha mão que arde de verdade. Pego na verdade e levo-a até ao nosso leito, como tu gostas... como nós gostamos. É bom olhar as nossas mãos, ardendo de verdade, buscando as circunstâncias de um tecido que nos abriga simples e unidos. Quando nos encontramos, uma vez e outra e outra, ficamos a falar conversas bonitas no lençol quente - e elas vão-se fechando aos poucos, ensonadas, até lhes adormecer a boca.
Pela manhã, gostamos e desejamos acordá-las felizes.
Gostamos, não. Desejamos, não. Elas acordam felizes. As mãos. Elas riem-se muito. Coram de lucidez matinal. Surpreendem-nos explodindo a sua força anímica, atarefadas de um lado para o outro, levando por diante as suas aspirações. E, no crepúsculo, já as nossas mãos se uniram assiduamente com conversas de pele, caminhando pela ladeira que leva à fonte - incansáveis de sede e aconchegadas ao cântaro de barro.

texto [excerto]: Maria Antonieta Preto
pintura: Isabel Lhano

domingo, 7 de março de 2010

A idade de ser feliz


Existe somente uma idade para a gente ser feliz,somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realiza-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encontrar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer. Fases douradas em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa.

texto: Mário Quintana
fotografia: Marques Tavares Carlos

quinta-feira, 4 de março de 2010

Um milhão de beijinhos



Era uma vez um mundo, lindo e radioso como um sol…

Nesse mundo, havia uma menina que vivia numa casinha feita de cores e alegria.

A menina chamava-se Maria e tinha um quarto repleto de brinquedos.

Um armário com muitos vestidos, como as princesas.

E um jardim, onde Maria balançava e voava alto, lado a lado com o seu amigo vento e sonhava…

Viviam-se tempos difíceis, e as riquezas de outrora desapareceram.

Um dia houve uma guerra, e o seu mundo tão bonito, perdeu brilho tornando-se sombrio e triste.

Apenas o coração de Maria se mantinha alegre, doce e colorido.

O seu jardim era o espelho do seu coração.

Um dia enquanto por lá passeava, a menina encontrou um pedacinho de papel prateado, feito de estrelas e pedaços de céu.

Maria teve então uma ideia… brilhante.

Embrulharia uma caixinha de fósforos, com o papel e ofereceria ao seu pai.

Assim pensou, assim o fez.

Talvez o presente amaciasse o coração do pai, agora, endurecido pela guerra.

Até…, talvez o pai voltasse a sorrir como dantes, pensou a menina.

Mas, o pai não ficou nada satisfeito!

- Não devias ter gasto dinheiro para comprar este papel prateado. Um papel tão especial deve ter custado um dinheirão! Tu não sabes que temos de poupar, para podermos comer?

O pai estava tão zangado, que não deixou a menina falar.

Abriu a caixa… a caixa está…

Maria tinha os olhos cheios de lágrimas, as quais lentamente rolavam pelas suas faces.

- Minha filha, tu nunca ouviste dizer, que quando se dá um presente a alguém, deve ter alguma coisa lá dentro?! – disse o pai.

- Mas a caixa não está vazia, porque antes de fechar…

- …eu soprei lá dentro um milhão de beijinhos?

O coração do pai que era tão pequenino, cresceu, cresceu imenso, tornando-se enorme e colorido.

Foi então a vez, do pai cobrir a menina de beijinhos de todas as cores e feitios.

Abraçaram-se com todo o carinho do mundo, num xi-coração muito apertado.

Tão apertado foi, que os seus corações permaneceram unidos para sempre.

texto e ilustração: Elsa Lé

terça-feira, 2 de março de 2010

Abraço



Um dia apaixonei-me por uma letra que estava na mesma página que eu..., essa letra encontrava-se na palavra "Abraço". Eu e o "Abraço" apaixonámo-nos quando alguém leu alto as palavras onde vivíamos. Nesta altura soubemos o quanto queríamos viver juntos para sempre.

texto [excerto]: Rui Almeida Paiva
Ilustração: Raquel Marín

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A MULHER MAIS BELA DO MUNDO



Era uma vez uma menina que se chamava Olguita.
Olguita estava sentada à porta de uma casa, lavada em lágrimas. Ela chorava, chorava, chorava…
A dada altura, as pessoas que passavam pararam e perguntaram-lhe:
-“Porque choras, menina?”
Ela respondeu-lhes:
-“Porque perdi a minha mãe.”
E as pessoas da aldeia insistiram:
-“Mas como se chama a tua mãe?”
- “Chama-se mãe!”, respondeu-lhes.
- “Mas, onde é que ela vive? Onde é que tu vives?”, tornaram elas.
-“Eu vivo na minha casa!”.

Já ninguém sabia o que havia de fazer. Mas ainda assim, voltaram a perguntar-lhe:
-“Com quem se parece ela? Como é a sua cara? Podes descrever a tua mãe?”

-“Oh! A minha mãe é a mulher mais bela do mundo”, disse a menina. Foi então que decidiram trazer todas as jovens mães da aldeia à presença de Olguita.
-“Não, esta não é a minha mãe. Não, esta também não é. E aquela também não!”
E recomeçou a chorar.

Subitamente, uma mulher de avental apareceu do outro lado da rua. Era uma mulher muito, muito gorda, de cara redonda e anafada, com uns olhos que brilhavam de alegria.
Logo que viu a filha, correu para junto dela e exclamou:
-“Minha filhinha, minha pequena Olguita!”
E a menina saltou para o colo da mulher, abraçou-a e, virando-se para as pessoas da aldeia, disse:
-“Vêem, esta é a minha mãe, a mulher mais bela do mundo!


texto: conto russo
ilustração: Sara Simões

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O Principezinho




- Vocês são bonitas, mas vazias - insistiu o principezinho. - Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é igual a vocês. Mas sozinha, é muito mais importante do que vocês todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.

Depois voltou para o pé da raposa e despediu-se:
- Adeus...
- Adeus - despediu-se a raposa. - Agora vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já não se lembram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és responsável pela tua rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.

texto [excerto] e ilustração: Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A vida nos bosques



A luz que ofusca os nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Mais dia está por raiar. O sol não passa de uma estrela matutina.

texto [excerto]: Henry David Thoreau
fotografia: Daniel Camacho

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A mecânica do coração I



Vem, minha árvore florida. Esta noite quando apagarmos a luz, vou pôr-te os óculos nos rebentos. Com a ponta dos meus ramos chegarás à abóbada celeste e sacudirás o tronco invisível que sustém a lua, fazendo cair sonhos novos a nossos pés como flocos de neve tépida. Plantarás solidamente na terra as tuas raízes em forma de saltos de agulha. Deixa-me chegar ao teu coração de bambu, quero dormir a teu lado.

texto [excerto]: Mathias Malzieu

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

a mecânica do coração



Após um quarto de hora de acertos e uma boa sopa de aletria, recupero o meu patusco estado normal.
Madeleine, essa, tem as feições tensas, como quando canta durante muito tempo para me adormecer, mas com um ar mais preocupado.
- O teu coração não passa de uma prótese, é mais frágil do que um coração normal e será sempre assim. O mecanismo de um relógio não é como os tecidos, não filtra tão bem as emoções. Tens de ser mais prudente. O que se passou na cidade, quando viste a pequena cantora, confirma o que eu temia: o amor é muito perigoso para ti.
- Adorei olhar para a boca dela.
- Não digas isso!
- Ela tem covinhas, sorri de muitas maneiras, dá-me vontade de ficar a olhar para ela.
- Tu não te apercebes, mas é como brincar com o fogo. É um jogo perigoso, sobretudo quando se tem um coração de madeira. Doem-te as engrenagens quando tosses, não doem?
- Doem.
- O mecanismo do teu coração explode. Fui eu que te enxertei esse relógio, sei perfeitamente como funciona, quais são os seus limites.

texto [excerto]: Mathias Malzieu

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Mergulha no meu colo




Quando descias à noite escura do meu colo recuperavas a tua claridade, a tua liberdade e segurança. Tal como naquela gruta marinha da nossa ilha, dizias: mergulha-se nas trevas para se encontrar numa maravilhosa luz azul.


literatura: Claudio Magris

fotografia: Inês d'Orey