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terça-feira, 27 de abril de 2010


Se eu nunca disse que os teus dentes

São pérolas,

É porque são dentes.

Se eu nunca disse que os teus lábios

São corais,

É porque são lábios.

Se eu nunca disse que os teus olhos

São d'ónix, ou esmeralda, ou safira,

É porque são olhos.

Pérolas e ónix e corais são coisas,

E coisas não sublimam coisas.

Eu, se algum dia com lugares-comuns

Houvesse de louvar-te,

Decerto que buscava na poesia,

Na paisagem, na música,

Imagens transcendentes

Dos olhos e dos lábios e dos dentes.

Mas crê, sinceramente crê,

Que todas as metáforas são pouco

Para dizer o que eu vejo.

E vejo lábios, olhos, dentes.


poema: Reinaldo Ferreira

pintura: Isabel Lhano

terça-feira, 23 de março de 2010

Se me puderes ouvir



O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo

poema: José Tolentino Mendonça

terça-feira, 16 de março de 2010

Álbum de Família



Voam as andorinhas, é Verão. Voam libélulas, tão transparentes como a palavra libélula, voam rente ao ribeiro sem se molharem, são férias. Voa o vento, voa a a música, voa o anjo, voa o grito desde o alto da montanha até à outra montanha e constrói uma ponte por cima do vale, voa a luz de Agosto através das folhas das árvores (e faz manchas claras no chão), e eu...
E eu, que não conheces pelo nome, eu também voo em sonhos. Descolo da terra na vertical, como um helicóptero, depois continuo um pouco inclinado e no alto, à esquerda, aparece o dia a madrugar e à direita, em baixo, está a noite noitíssima, e eu sempre a subir, tal qual uma nave espacial, para o azul do meio, entre o sol e a lua, enquanto a terra se afasta, diminui, fica pequena, uma ervilha. Quem não sonha e não voa não é teu amigo.

Queres voar comigo?

texto: Jorge Listopad

terça-feira, 9 de março de 2010

As nossas mãos



O teu corpo entre a luz do azeite, ou as velas em castiçais, como o teu rosto aceso nos jantares. Nem um dia sem uma luz do sol. Nem uma noite sem uma luz das estrelas.
O teu corpo num altar. O teu corpo junto a um altar. O teu corpo, um altar onde beijo a cor do coração e me ajoelho, fixando os nossos olhares que olham na mesma direcção. Estão lá os nossos santos, a nossa fé, os nossos gestos encostados à berma do nosso leito, que é o leito e altar, antes de nos descansarmos.
As noites têm uma mão acesa, junto à lamparina azeite que é costume deixares a arder pela madrugada fora. Toco a tua mão acesa e dou-lhe a minha mão que arde de verdade. Pego na verdade e levo-a até ao nosso leito, como tu gostas... como nós gostamos. É bom olhar as nossas mãos, ardendo de verdade, buscando as circunstâncias de um tecido que nos abriga simples e unidos. Quando nos encontramos, uma vez e outra e outra, ficamos a falar conversas bonitas no lençol quente - e elas vão-se fechando aos poucos, ensonadas, até lhes adormecer a boca.
Pela manhã, gostamos e desejamos acordá-las felizes.
Gostamos, não. Desejamos, não. Elas acordam felizes. As mãos. Elas riem-se muito. Coram de lucidez matinal. Surpreendem-nos explodindo a sua força anímica, atarefadas de um lado para o outro, levando por diante as suas aspirações. E, no crepúsculo, já as nossas mãos se uniram assiduamente com conversas de pele, caminhando pela ladeira que leva à fonte - incansáveis de sede e aconchegadas ao cântaro de barro.

texto [excerto]: Maria Antonieta Preto
pintura: Isabel Lhano

sábado, 6 de março de 2010

Cântico dos Cânticos



Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!
Eis que o Inverno já passou,
a chuva parou e foi-se embora;
despontam as flores na terra,
chegou o tempo das canções,
e a voz da rola
já se ouve na nossa terra;
a figueira faz brotar os seus figos
e as vinhas floridas exalam perfume.
Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!
Minha pomba, nas fendas do rochedo,
no escondido dos penhascos,
deixa-me ver o teu rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Pois a tua voz é doce
e o teu rosto, encantador.

poema: Salomão
pintura: Ilda David

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O Amor é o Amor



O amor é o amor — e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos — somos um? somos dois?
espírito e calor!

O amor é o amor — e depois?

poema: Alexandre O'Neill

Primeiro a tua mão



Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.

poema: Rosa Lobato de Faria
pintura: Hessam Abrishami

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Pés no coração



Na memória da pedra os pés
as mãos alteadas
à profundidade das nuvens

o coração líquido
aquoso alento
respirável húmus

poema: João Manuel Ribeiro
pintura: Rafal Olbinski

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Ah! Os relógios




Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...


poema: Mário Quintana
pintura: Dalí

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Coração Habitado



Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.

poema: Eugénio de Andrade
pintura: Isabel Lhano

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Dá-me as Tuas Mãos


As mãos foram feitas
para trazer o futuro,
encurtar a tristeza, encher
o que fica das mãos
de ontem - intervalos
(duros, fiéis) das palavras,
vocação urgente
da ternura, pensamento
entreaberto até
aos dedos longos
pelas coisas fora
pelos anos dentro.

poema: Vítor Matos e Sá

pintura: Isabel Lhano

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Soneto do amor e da morte


quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

poema: Vasco Graça Moura
pintura: Alex Grey

domingo, 27 de dezembro de 2009

Mãe



Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei.

Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!


Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.


Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.


Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade!


poema: Almada Negreiros

pintura. Klimt

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Primeiras Palavras



Se eu te pedisse um verso apenas
que palavras dirias para fixar a sombra
dos meus olhos? Essa árvore de onde
nascem os pássaros quase azuis, quase verdes,
de tanto poisarem no teu ombro.

poema: Francisco José Luís Viegas
pintura: Isabel Lhano

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Poesia



é a visita do tempo nos teus olhos,
é o beijo do mundo nas palavras

por onde passa o rio do teu nome;

é a secreta distância em que tocas

o princípio leve dos meus versos;

é o amor debruçado no silêncio

que te cerca e que te esconde:

como num bosque, lento, ouvimos

o coração de uma fonte não sei onde...


poema: Vítor Matos e Sá
pintura: Graça Martins

sábado, 21 de novembro de 2009

Confidência



Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

poema: Mia Couto
pintura: Isabel Lhano

domingo, 8 de novembro de 2009

Amo-te nesta Ideia Nocturna da Luz nas Mãos



Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.

poema: Daniel Faria
pintura: Isabel Lhano

domingo, 25 de outubro de 2009

Nada entre nós tem o nome da pressa



Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós


o tempo desenha-se assim, devagar.

Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.


poema: Maria do Rosário Pedreira

pintura: Klimt

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Marés e marinheiros


A vida hoje afastou-nos da natureza: as paisagens urbanas, com as suas florestas de betão, encerram a vida entre paredes eficazes, super-cómodas, é certo, mas o ar que respiramos por alguma razão se chama “ar condicionado”.

O que acredito é que precisamos de amplitude, de campos vastos a perder de vista, de viagens mais profundas que as da rotina. Precisamos perceber o silêncio das coisas, cúmplice do silêncio da nossa alma.

Precisamos da liberdade leve dessas horas inapreensíveis que passamos junto ao mar.

Há um poeta que diz: “Deus anda à beira d’água”. Não me admiro nada. A imensidão, o nome límpido, a alegria azul do mar são luares onde Deus deixou o Seu toque.

Os caminhos marítimos para os outros continentes estão descobertos. Falta, talvez, (re)descobrir o caminho marítimo para o porto secreto de cada coração.


reflexão: José Tolentino Mendonça

pintura: Salvador Dalí

terça-feira, 20 de outubro de 2009

na mão madura a luz imóvel pára a pêra sucessiva,
pára-a e exara-a e nela sela
a beleza:
era o segredo:
o mundo já estava pronto

poema: Herberto Helder
pintura: Artur Cruzeiro Seixas