
quem como eu traz desfraldado o coração
sabe o que querem dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.




Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.
O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade! E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado.
O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!
E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não.
Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!
Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta confessei a verdade: Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos...
poema: José de Almada Negreiros
fotografia: Al Magnus


Se eu nunca disse que os teus dentes
São pérolas,
É porque são dentes.
Se eu nunca disse que os teus lábios
São corais,
É porque são lábios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
São d'ónix, ou esmeralda, ou safira,
É porque são olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas não sublimam coisas.
Eu, se algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto que buscava na poesia,
Na paisagem, na música,
Imagens transcendentes
Dos olhos e dos lábios e dos dentes.
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as metáforas são pouco
Para dizer o que eu vejo.
E vejo lábios, olhos, dentes.
poema: Reinaldo Ferreira
pintura: Isabel Lhano





a Sophia de Mello Breyner
O custo da perfeição não tem idade
mas traz cansaço e vidas dobradas,
dizes,
para o tornozelo e o pescoço esguio
não foram sete dias, foram séculos
de história e um estilhaço no horizonte
para salvar da beleza o teu corpo
e o seu exílio, dizes,
e eu escrevo nas ondas com que criaste o mar,
a forma pura e límpida da búzio
por onde entram fadas, conchas ao entardecer.
Mas a princesa mora para lá do tempo
onde o ar é imóvel nos seus cabelos,
dizes
quantos escravos moldaram rosto a rosto
a simplicidade, quanto inútil for a morte
e a vida ajoelhada. Não fosse o mar
salpicar-te a face toda com palavras
não dirias pátria de voz cheia,
não terias acordado com um beijo de cravo
na lapela aberta do poema.

As mulheres são os lugares recuados
em que as mãos descobrem os filhos.
São lugares fundos, luminosos por dentro,
habitados por extensões espirituais,
porções parasitárias de semelhança
que se mantêm amarradas por ataduras
viscerais e que um dia, violentamente,
são entregues à luz.
poema: José Rui Teixeira
escultura: Karin Somers


Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá.
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.
Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.
poema: Cecília Meireles
fotografia: António Silva
