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sábado, 3 de julho de 2010

O céu



Assoam-se-me à alma
quem como eu traz desfraldado o coração
sabe o que querem dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.

poema: Luís Miguel Nava
fotografia: Alastair Magnaldo

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Tempo Vive



O tempo vive, quando os homens, nele,
se esquecem de si mesmos,
ficando, embora, a contemplar o estreme
reduto de estar sendo.
O tempo vive a refrescar a sede
dos animais e do vento,
quando a estrutura estremece
a dura escuridão que, desde dentro,
irrompe. E fica com o uivo agreste
espantando o seu estrondo de silêncio.

poema:
Fernando Echevarría
fotografia: Pedro Sacadura

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Esperança



Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

poema: Mário Quintana
fotografia: José António

Mar, metade da minha alma é feita de maresia



Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.

poema: Sophia Andresen
fotografia: Márcio Farias

sábado, 29 de maio de 2010

A verdade



Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.

O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade! E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado.

O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!

E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não.

Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me pas­sou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta confessei a verdade: Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos...


poema: José de Almada Negreiros

fotografia: Al Magnus

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Sítio exacto


Sei que não acaba
o teu prazer,
nem o meu.

Alguém
ama connosco
e nos leva
ao sítio exacto
das estações.

Nem o sono
depois nos pertence,
quinhão de outros
herdado após amarem.

poema: António Osório

fotografia: Carla Salgueiro

Devo-te



Devo-te tanto como um pássaro
deve o seu voo à lavada
planície do céu.

Devo-te a forma
novíssima de olhar
teu corpo onde às vezes
desce o pudor o silêncio
de uma pálpebra mais nada.

Devo-te o ritmo
de peixe na palavra,
a genesíaca, doce
violência dos sentidos;
esta tinta de sol
sobre o papel de silêncio
das coisas - estes versos
doces, curtos, de abelhas
transportando o pólen
levíssimo do dia;
estas formigas na sombra
da própria pressa e entrando
todas em fila no tempo:
com uma pergunta frágil
nas antenas, um recado invisível, o peso
que as deixa ser e esquece;
e a tua voz que compunha
uma casa, uma rosa
a toda a volta - ó meu amor vieste
rasgar um sol das minhas mãos!

poema: Vítor Matos e Sá
fotografia: Alba Luna

"Apanha os botões de rosa enquanto podes
o tempo voa
e esta flor que hoje sorri
amanhã estará moribunda"

poema: Walt Whitman
fotografia: Marcel Caram

domingo, 2 de maio de 2010




Dormiam no fogo, em brancos cavalos atraves-
savam jardins.
A música emanava dos corpos, transmitia-se à
vegetação.

Iam umas nas outras, as crianças,
levando nos cabelos o cheiro violento das tangerinas.

poema: Isabel de Sá
fotografia: Rarindra Prakarsa

terça-feira, 27 de abril de 2010


Se eu nunca disse que os teus dentes

São pérolas,

É porque são dentes.

Se eu nunca disse que os teus lábios

São corais,

É porque são lábios.

Se eu nunca disse que os teus olhos

São d'ónix, ou esmeralda, ou safira,

É porque são olhos.

Pérolas e ónix e corais são coisas,

E coisas não sublimam coisas.

Eu, se algum dia com lugares-comuns

Houvesse de louvar-te,

Decerto que buscava na poesia,

Na paisagem, na música,

Imagens transcendentes

Dos olhos e dos lábios e dos dentes.

Mas crê, sinceramente crê,

Que todas as metáforas são pouco

Para dizer o que eu vejo.

E vejo lábios, olhos, dentes.


poema: Reinaldo Ferreira

pintura: Isabel Lhano

domingo, 18 de abril de 2010

Tarde de leite e rosas, ouvindo a floresta



Tarde de leite e rosas. Cada aresta,
Tinha um rubi tremente:
Fomos ouvir o canto da floresta,
O seu canto de amor, ao sol poente.

Em cada ramo, um violino havia:
Cada folha vibrava, ágil, sonora,
Par'cendo que escondia uma harmonia,
Nas sombras das ramagens, a Aurora.

Como a floresta, meu amor, eu tento,
Atirar o meu canto pra a altura:
Para a fazer cantar, toca-lhe o vento,
Pra me fazer cantar, no pensamento,
Passa o sopro da tua formosura.

poema: João Lúcio
fotografia: Rarindra Prakarsa

sábado, 17 de abril de 2010

Coração Polar



Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha .
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.

poema: Manuel Alegre
fotografia: João Chaves

terça-feira, 23 de março de 2010

Se me puderes ouvir



O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo

poema: José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 18 de março de 2010

De um sonho



Uma casa que sonha com o mar
tem a luz que está a ser sonhada.
Nela, os habitantes vivem e morrem,
ouvindo só o som do mar distante.
Porém um dia, os habitantes saem
para o mar. A casa acorda
e não mais se recorda do seu sonho,
deixando entrar outro sol da realidade.

poema: Fiama Hasse Pais Brandão
fotografia: *DaJe

terça-feira, 16 de março de 2010

Princesa Desconhecida sem retrato


a Sophia de Mello Breyner

O custo da perfeição não tem idade

mas traz cansaço e vidas dobradas,

dizes,

para o tornozelo e o pescoço esguio

não foram sete dias, foram séculos

de história e um estilhaço no horizonte

para salvar da beleza o teu corpo

e o seu exílio, dizes,

e eu escrevo nas ondas com que criaste o mar,

a forma pura e límpida da búzio

por onde entram fadas, conchas ao entardecer.

Mas a princesa mora para lá do tempo

onde o ar é imóvel nos seus cabelos,

dizes

quantos escravos moldaram rosto a rosto

a simplicidade, quanto inútil for a morte

e a vida ajoelhada. Não fosse o mar

salpicar-te a face toda com palavras

não dirias pátria de voz cheia,

não terias acordado com um beijo de cravo

na lapela aberta do poema.



poema: Rosa Alice Branco
fotografia: Daniel Camacho

domingo, 14 de março de 2010




As mulheres são os lugares recuados

em que as mãos descobrem os filhos.

São lugares fundos, luminosos por dentro,

habitados por extensões espirituais,

porções parasitárias de semelhança

que se mantêm amarradas por ataduras

viscerais e que um dia, violentamente,

são entregues à luz.


poema: José Rui Teixeira

escultura: Karin Somers

sábado, 13 de março de 2010



E se não escrever o teu nome
como direi a alegria ao mundo?

poema [excerto]: Daniel Faria
ilustração: rachel caiano

sexta-feira, 12 de março de 2010

A bailarina


Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré

mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá

Mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,

mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar

e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.


poema: Cecília Meireles

fotografia: António Silva

quinta-feira, 11 de março de 2010

Quando à noite desfolho e trinco as rosas



É como se prendesse entre os meus dentes
todo o luar das noites transparentes,
todo o fulgor das tardes luminosas,
o vento bailador das primaveras,
a doçura amarga dos poentes,
e a exaltação de todas as esperas.
Quando à noite desfolho e trinco as rosas,
és tu a primavera que eu esperava,
a vida multiplicada e brilhante
em que é pleno e perfeito cada instante.

poema: Sophia de Mello Breyner Andresen
fotografia: Lúcia Letra