domingo, 7 de fevereiro de 2010

O RAMO ROUBADO



De noite iremos


roubar


um ramo florido.


Saltaremos o muro,


nas trevas do jardim alheio,


duas sombras na sombra.


Ainda não passou o inverno,


e a macieira aparece


subitamente transformada


em cascata de perfumadas estrelas.


De noite saltaremos


até ao seu trémulo firmamento,


e as tuas pequenas mãos e as minhas


roubarão as estrelas.

E em segredo,


na nossa casa,


na noite e na sombra,


entrará com os teus passos


o silencioso passo do perfume


e com pés siderais


o corpo claro da primavera.


poema: Pablo Neruda

fotografia: Jordi Gallego

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto



Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo

das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas

da casa e de tudo aquilo com que sonhes.


Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava

no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha

a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi

de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs

com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai

demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,

serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono

se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

poema: Maria do Rosário Pedreira
fotografia: Pedro Moreira

Para atravessar contigo o deserto do mundo



Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte

Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

poema: Sophia de Mello Breyner Andresen

fotografia: MARIAH

Dá-me as Tuas Mãos


As mãos foram feitas
para trazer o futuro,
encurtar a tristeza, encher
o que fica das mãos
de ontem - intervalos
(duros, fiéis) das palavras,
vocação urgente
da ternura, pensamento
entreaberto até
aos dedos longos
pelas coisas fora
pelos anos dentro.

poema: Vítor Matos e Sá

pintura: Isabel Lhano

Blue Man Group - I Feel Love


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Josh Groban - You raise me up


Arco-Íris


Hoje
estou chovendo
Mas não é o meu pranto
que molha meus olhos.

É uma doce paz, intocada
e feliz
e me deito na chuva, olhos abertos,
como menino que fui,
leve e puro,
tão longe.

Hoje
estou chovendo,
e a visão
de tua lembrança, como um raio de sol
lança uma serpentina de arco-íris
no coração.

fotografia: MARIAH

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Tão simples este amor



Tão simples este amor nasceu... Nós nem notamos
que era amor e afeição que aos poucos nos
[prendia...
O amor, - é aquela flor que engrinalda dois ramos
aos esponsais de luz do sol de cada dia!

Dois ramos, - eu e tu, - e as horas desfolhamos
numa doce, irrequieta e impensada alegria,
- e assim vamos vivendo, e a viver, acenamos
sonhos verdes aos céus azuis da fantasia!

Tão simples este amor nasceu... Tal como nasce
um beijo em tua boca, um riso em tua face,
uma estrela no céu... ou uma flor de um botão.. .

Nem era necessário mesmo eu te falar,
se já o tens transformado em luz no teu olhar,
e eu, já o sinto a cantar, dentro do coração!

poema: J. G. de Araújo Jorge
fotografia: Carla Salgueiro

Uma Hora de Morrer



Uma hora de morrer é aquela
em que, debruçado sobre teus olhos,
me agarro a ti para salvar-me
e sinto que afundamos juntos.

Uma hora de morrer é aquela em que nada dizes,
em que apenas me olhas como agradecendo,
e em que me guardas ainda contra ti,
como se quisesse Ter a certeza de que apesar de tudo
ficamos na terra.

fotografia: Daniel Camacho

Sigur Rós - Glósóli


A Tarde Cai... Enquanto te Despes...



A tarde morna, sensual, lânguida, no poente
vai descendo de manso, lentamente,
em dobras roxas pelos espaços...
- como a tua camisa quando te despes
displicente,
para a ansiedade dos meus braços...

A tarde,
presa naquele cume de montanha,
fugindo suavemente, silenciosa,
com a cautela de alguém que espreitasse o horizonte
cheia de receios,
- parece, no teu corpo acetinado e quente,
a camisa cor-de-rosa
e indolente
que encontrou ao cair a arrogância dos bicos
dos teus seios...

A tarde vai caindo, e vacila, e demora
naquele cimo de montanha
que esbatido no azul das distâncias, agora,
num forte tom vermelho
se ruboriza,
- tal como a tua camisa
toda vez
que indiferente à minha sofreguidão,
roçando em teus quadris, parando em teu joelho,
vai descendo, descendo, em dobras, molemente,
em dobras suaves de seda a desmaiar plisses
sobre o chão...

A tarde morna, com seus tons dúbios de luz
fugidia,
tem esse calor distante,
esse vago perfume
e esse gesto indolente e cheio de torpor,
- da camisa ao soltar-se dos teus ombros nus
em carícias estranhas,
no instante em que teu corpo, branco como o dia,
encontra nos meus braços o abraço das montanhas
para a Noite de amor...



digo o teu nome como um relâmpago,

imagino pássaros planando em círculos no
céu da boca, lugares de mulheres como árvores
estremecidas

embala-me porque é a tua voz que
eu colho nas marés e boca na boca é a tua
Luz que me deslumbral

poema: Isabel Coelho dos Santos
fotografia: Inês d'Orey