quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Nos campos onde moram os ventos dos teus olhos


Diz que me amas como uma pétala que cai,
que foste a palmeira branca
de todas as coisas impossíveis,
a claridade que atravessa o mais longo oceano do Outono,
nas esplanadas das cidades que se esgotam no Tempo
onde me vês, escondido entre palavras mudas,
esgravatando a música de insondáveis rumores,
e que apesar de tudo me encontras como sou, descalço
entre pombas e magnólias, o mar do Verão nas mãos trémulas,
e o teu nome a crescer na minha boca como uma rosa,
cintilante e cheia de poesia.

poema e fotografia: Eduardo Bettencourt Pinto

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Todo o tempo é curvo
quando nas tuas mãos
sou trajecto e às vezes pássaro.

poema: Sandra Costa
fotografia: Silent-Order

[zris]



como se em flor os deuses
se abandonassem
e houvesse uma cor breve
no interior de cada palavra
que certos poetas usam
para segredar o mundo

e todavia se pressentisse a
eternidade
na disposição frágil
das sílabas e das pétalas

poema: Sandra Costa
fotografia: Inês d'Orey

a mecânica do coração



Após um quarto de hora de acertos e uma boa sopa de aletria, recupero o meu patusco estado normal.
Madeleine, essa, tem as feições tensas, como quando canta durante muito tempo para me adormecer, mas com um ar mais preocupado.
- O teu coração não passa de uma prótese, é mais frágil do que um coração normal e será sempre assim. O mecanismo de um relógio não é como os tecidos, não filtra tão bem as emoções. Tens de ser mais prudente. O que se passou na cidade, quando viste a pequena cantora, confirma o que eu temia: o amor é muito perigoso para ti.
- Adorei olhar para a boca dela.
- Não digas isso!
- Ela tem covinhas, sorri de muitas maneiras, dá-me vontade de ficar a olhar para ela.
- Tu não te apercebes, mas é como brincar com o fogo. É um jogo perigoso, sobretudo quando se tem um coração de madeira. Doem-te as engrenagens quando tosses, não doem?
- Doem.
- O mecanismo do teu coração explode. Fui eu que te enxertei esse relógio, sei perfeitamente como funciona, quais são os seus limites.

texto [excerto]: Mathias Malzieu

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Isabel Allende conta histórias de paixão


Soneto do amor e da morte


quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

poema: Vasco Graça Moura
pintura: Alex Grey

Como o Coração


Tudo o que dizemos e fazemos
passa por esses momentos violentos do corpo,
onde os desejos vêm beber como os animais cansados
chegam aos grandes rios originários das nossas fundações.
Que memória consentir então aos corpos,
que lugar deserto às paixões, que curso
ao nosso descer o rio?

Tu não me respondes. Entramos no mais fundo
da pedra, no túmulo preterido, espólio
de um deus acossado, eu estrangeiro, eu esquecido.
Tu ocultas o coração, voltas-te de perfil
para as dunas, a pedra, pedra.
Não me respondes.

Como o coração, dizes.


poema: Luís Filipe Castro Mendes
fotografia: Mark Freedom

O Mar é Longe, mas Somos Nós o Vento


O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

poema: Pedro Tamen
fotografia: Maria Catunto

Cântico Negro [José Régio]


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Para Vivenciar Nadas




borboleta é um ser irrequieto.
para vestes usa pólen.
tem um cheiro colorido
e babas de amizade.
descola por ventos
e facilmente aterriza em sonhos.
borboleta tem correspondência directa
com a palavra alma.
para existir usa liberdades.
desconhece o som da tristeza
embora saiba afogá-la.
usa com afinidades
o palco da natureza.
nega maquilhagens isentas
de materiais cósmicos. como digo:
pó-de-lua, lápis solar
castanho-raiz, cinzento-nuvem.
borboleta dispõe de intimidades
com arcos íris
a ponto de cócegas mútuas.
para beijar amigos e vidas ela usa olhos.
borboleta é um ser
de misteriosos nadas.

poema: Ondjaki
fotografia: *DaJe

Antony and the Johnsons - Fistfull Of Love


Atlhete - Superhuman Touch



domingo, 3 de janeiro de 2010

Borboleta




Quando é que a borboleta lê
o que voa escrito nas suas asas?

poema: Pablo Neruda