Mar, metade da minha alma é feita de maresia Pois é pela mesma inquietação e nostalgia, Que há no vasto clamor da maré cheia, Que nunca nenhum bem me satisfez. E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia Mais fortes se levantam outra vez, Que após cada queda caminho para a vida, Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal É porque também tu revoltado e teatral Fazes soar a tua dor pelas alturas. E se antes de tudo odeio e fujo O que é impuro, profano e sujo, É só porque as tuas ondas são puras.
Movido pelo ódio, embora ainda não totalmente dominado por ele, o imperador Conrado III, entrando na cidade de Baviera, consentiu em deixar fugir as mulheres. Apenas. Que elas saíssem a pé, foi a sua imposição; e que levassem só o que pudessem carregar com os braços. Tudo o que ficasse para trás seria arrasado pelo fogo. (...) A parte que conta Montaigne comove: as mulheres, com a força que só o coração e o desespero conseguem, pegaram em filhos e maridos e carregaram-nos às costas, livrando-os da morte.
texto [excerto]: Gonçalo M. Tavares fotografia: Mariana Sabido
Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.
O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade! E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado.
O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!
E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não.
Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!
Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta confessei a verdade: Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos...
Na mais central praça da cidade erguia-se a estátua do Príncipe Feliz. Era uma autêntica jóia.
Um dia pousou aos pés da estátua uma formosa andorinha, que estava de passagem para o Egipto. Era a sua última oportunidade, pois havia-se atrasado ao querer convencer um junco a acompanhá-la na viagem. Mas o junco não pode separar-se da terra que lhe dá a vida, apesar do amor que o liga à andorinha...! Olhando com mais atenção para a estátua, a andorinha notou que duas gotas lhe molhavam a cara... Eram duas grossas lágrimas! -Porque choras, Príncipe? -Pelos pobres da cidade, amiguinha. Há tantos! Quando reinava, ninguém me contava nada do que sucedia, e os altos muros do Palácio não me deixavam ver. Mas desde que me colocaram aqui posso ver a pobreza e a miséria de tanta gente, e sinto-me angustiado. Queres ajudar-me? -Estou de passagem para o Egipto... -respondeu-lhe a andorinha. Mas o Príncipe pediu-lhe tanto, que acabou por dizer que sim. -Arranca o rubi da minha espada. Leva-o ali àquele casebre em frente. Lá vivem uns meninos pobres que não podem pagar o aluguer. Querem pô-los na rua... Impede-lo! A andorinha arrancou o rubi da espada e levou-o ao casebre. -Olhem, deixou-nos uma coisa. -É uma jóia. Podemos vendê-la e com o dinheiro pagar o aluguer da nossa casa. - disse a mais velha. Voltando para junto da estátua, a andorinha disse ao Príncipe: -Terminei, Príncipe. Agora vou partir para o Egipto. -Espera um pouco, amiguinha. Há mais pobres na cidade. Leva uma safira a um escritor doente, que é tão pobre que nem pode pagar os remédios. -Mas a safira é um dos teus olhos. Vais ficar vesgo se t'o arrancar. -Não faz mal! Anda, vai ajudá-lo. A andorinha voou até à arruinada cabana que o Príncipe lhe tinha indicado. E a safira serviu para salvar o velho escritor. Havia mais pobres na cidade. A andorinha tinha que voar para o Egipto, onde passaria o Inverno junto com as irmãs... mas o Príncipe pediu-lhe que tirasse a outra safira do olho. -Se o fizeres FICARÁS CEGO! -Não faz mal, andorinha. Estava muito frio. O Inverno já se instalava. E a andorinha foi socorrer outros pobres. Arrancou uma a uma as lâminas de ouro da estátua. E quando acabou e dela já nada de valor restava, deitou-se aos pés do amigo. Não o abandonaria assim cego...! E numa noite ainda mais fria a andorinha morreu, o que feriu profundamente o coração de chumbo do Príncipe Feliz. Como a estátua sem os enfeites ficara muito feia, um dia baixaram-na do pedestal e levaram-na para uma fundição. Mas ao fundi-la verificaram que o coração de chumbo resistia ao calor mais elevado. Deram-no então a outro ferreiro, que também não conseguiu fundi-lo. -Tragam ao Céu o coração de chumbo do Príncipe Feliz e o corpo da Andorinha -ordenou Deus, sorrindo. -Nunca na Terra ninguém demonstrou tanto amor pelos pobres -acrescentou. -Por isso vão ficar eternamente a meu lado.
Sei que não acaba o teu prazer, nem o meu. Alguém ama connosco e nos leva ao sítio exacto das estações. Nem o sono depois nos pertence, quinhão de outros herdado após amarem.
Devo-te tanto como um pássaro deve o seu voo à lavada planície do céu.
Devo-te a forma novíssima de olhar teu corpo onde às vezes desce o pudor o silêncio de uma pálpebra mais nada.
Devo-te o ritmo de peixe na palavra, a genesíaca, doce violência dos sentidos; esta tinta de sol sobre o papel de silêncio das coisas - estes versos doces, curtos, de abelhas transportando o pólen levíssimo do dia; estas formigas na sombra da própria pressa e entrando todas em fila no tempo: com uma pergunta frágil nas antenas, um recado invisível, o peso que as deixa ser e esquece; e a tua voz que compunha uma casa, uma rosa a toda a volta - ó meu amor vieste rasgar um sol das minhas mãos!
poema: Vítor Matos e Sá fotografia: Alba Luna
"Apanha os botões de rosa enquanto podes o tempo voa e esta flor que hoje sorri amanhã estará moribunda"
poema: Walt Whitman fotografia: Marcel Caram
domingo, 2 de maio de 2010
Dormiam no fogo, em brancos cavalos atraves-
savam jardins.
A música emanava dos corpos, transmitia-se à
vegetação.
Iam umas nas outras, as crianças,
levando nos cabelos o cheiro violento das tangerinas.